Marcelo Zacarelli

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18 junho 2015

Quiçá


Todo poema morreu
Todas as flores feneceram
Quiçá, o meu coração...

Súbito prelúdio que me acometeu
Se o que tenho é meu
Não dou a ninguém
Dentro de um ataúde eu escondo
Da carne ao pó,
Da alma a subtração

A sínica solene da minha despedida
Não reclame aos mortos
As estrofes perdidas...
Em cada lápide uma história
Onde começa, como termina
Tudo tem um fim;
A morte, a vida, a poesia...

Mesmo que a morte
Me esqueça por uma vida
Viverei intensamente para você
Todos os meus fatídicos dias
Meu amor; por mais que não me queiras
Não podereis dizer
Quiçá, o meu coração.

Marcelo Henrique Zacarelli
São Paulo, 08 de Janeiro de 2015
(Bairro Pinheiros)

30 agosto 2014

Eu Devia Saber


Eu devia saber que terminaria assim
A barba grisalha, esdruxula, crescida
Eu é que deveria me acostumar comigo
Assim tão cheio de mim, de alma vazia.

Preencho o quarto com tamanha solidão
Trancafiando enfim todo o pensamento
Tudo que restou de mim se resume em pôr do sol
Que toda tarde cai do firmamento.

Desço as ruas das lamentações
As tristes ruas de paralelepípedos
Dores e mais dores espalhadas pelo chão
Bocas a procura de sorrisos.

Eis que num outono gelado, geme;
Um coração fragmentado, devastado
Percorre por calçadas e bueiros
E desaparecem no uivar do vento.

Porém, mais uma noite se aproxima
Onde será que foi que me meti?
Preciso tomar um banho, arrumar a cama
Sem eu por perto não consigo dormir.

Amanhã de manhã, eu irei colocar a mesa
Vou tomar um café, refletir sobre o fim
Viver sem você á muito me deixou uma certeza
Eu devia saber que terminaria assim.

Marcelo Zacarelli
São Paulo, 15 de Agosto de 2014



28 julho 2014

Bocas que se Calam


O vento passa com suas mãos sorrateiras
Apalpando tudo que vê pela frente,
As árvores derrubarão suas bocas
Uma a uma todas famintas,
Molhadas e contorcidas
Estremecidas as procuram entre si...

Umas as outras sedentas

Por um bocado de orvalho,
Que possam matar-lhes a sede
Folhas caídas pelo vento sufocadas,
Bailam sozinhas sem destino
A procura do par recalcado.

Até que as árvores produzam

Outras bocas,
A saudade subsistirá
Transpassando os corações,
Bocas que se encontram
Por alguma razão,
E se calam pela dor da solidão.

Marcelo Zacarelli
São Paulo, 10 de Maio de 2014





02 março 2014

Liberdade no Xis


Há semanas ele está sóbrio
Abrigado do frio e do mau tempo
Da janela sozinho conversa com o vento
Que lhe sopram más notícias;

Lá no Xis, sempre quis
Ter liberdade para pensar
Extravasar por ora as dores
Compor a vida, sofrida de amores;

De pulsos cerrados
Invisivelmente algemado
Um homem sem sombra
Pelo sol esquecido;

A saudade da mulher que ama
Coração rabiscado na parede
A dor da qual se transforma em poesia
Passa a noite em claro, ao raiar do dia;

O relógio que marca
A eternidade do tempo
Grades e portões não as podem prendê-lo
Aquele homem no Xis
Coloca em liberdade o seus pensamentos.

Texto modificado (em partes) do seu Original
em: 02 de Março de 2014

Marcelo Zacarelli
Itaquaquecetuba, 17 de Maio de 2002





12 fevereiro 2014

A Tribo dos Remanescentes


Dispersaram-se os corvos da imunda carnificina
Atiçaram os coiotes predadores, dentre o sangue das feridas;
Abutres disputavam os restos mutilados
Dos flagelos que tornastes tua tribo.

Vós, os remanescentes da grande tribulação
Sereis devorados em um só golpe
Teu exército sucumbirá como o pó do deserto
Qual sobe feito redemoinho a soprar em teus ouvidos
O estridente ruído da indignação.

Estarei adjunto a infantaria pesada
Subiremos montanhas à caça da vossa carcaça
Devastaremos as vossas esperanças
Aniquilaremos as vossas rosas
O vosso jardim tornar-se-á um seol de pétalas despedaçadas.

Cantaremos um cântico fúnebre em memória da vossa derrota
Na terra do esquecimento, as tuas lápides estarão em negrito
Todo olho que ver, lembrará da desonra da tua tribo;
Fecharemos a boca dos grandes lobos
Arrancaremos as vossas mandíbulas.

Todos os teus pensamentos tornaram-se ruínas;
Então escolheremos outros povos
Formaremos uma tribo leal aos nossos conceitos
Toda ideologia fútil escarnecida.

Jaz em um ataúde consumido pelo tempo
Seremos a tribo dos cavaleiros indulgentes
A vós antepassados desobedientes
Sereis lembrados na vergonha
Pela tribo dos remanescentes.

Marcelo Zacarelli
São Paulo, 24 de Janeiro de 2014



19 janeiro 2014

Reticências


Pobre diabo é que sois
Caçoava de mim, a minha própria existência
Que pensas que é o amor?
Se não da vida, as reticências...
Deixei-as por inacabadas
Mas quem é que não chega a morrer assim?
Eu mesmo vivo farto delas.

Replico, de teimoso
Por que amar, este mesmo, nem sabe;
O caminho do ódio me parece mais curto
E põem-te a sofrer menos
Por isso amei odiá-las, por convicção ou acaso.

Quando me pego na solidão, lá vem elas
Saltam entre linhas de amores não correspondidos
Podem-se achá-las em qualquer esquina
Qualquer quarto, em goles de bebidas...
Estas coisas, por ironia do destino
Assombraram-me sem qualquer aviso.

Então encontrei uma maneira de virar o jogo
Nas exclamações até certo ponto
Por ora deram-me certo;
Otimismo demais fazem mal a saúde
Adoecem as certeza, alimentam as decepções

Se tudo pode ser uma interrogação
Até mesmo a morte
Fica a dúvida se me perguntares
Até quando a sorte?
Foi então que cansei 
Abri mão da sínica gramática da vida.

Se queres uma sincera opinião sobre a vida
Toma esta por explanação!
Que faço eu agora com os temores desta vida?
Os rumores dos amores!
Ah! os amores...

Marcelo Zacarelli
São Paulo, 09 de Janeiro de 2014



Estrada Km 44


Deveras, o caminho da vida é uma estrada
Infinita aos olhos da criança, curta para o intuito da adulta
Porém, não são os mesmos sóis por ambos os caminhos?
A diferença é que há um, paira no firmamento
Enquanto o outro morre na gula dos seus dias;

Eu acordei criança ainda pelo Km 5
Não me perguntem sobre as páginas da minha meninice
Talvez o pai pudesse-lhes dizer, não fosse desde 2007
Nem pó, nem ataúde, nem projeto de gente;
Quanto a mãe, na qual percorreu esta estrada
Confortável assentada na janela do tempo
Ainda que os sessenta e sete o tomara
Corra! para que os anos não lhe afetem a memória.

Quase sai do purgatório da inocência aos quatorze
Pisando em terra firme, velejei pelos mares desta vida
De certo que eras feminino; eu as mesmo provei
Extraíram-se destes, muito mais sais que prazeres;
A primeira carteira, o primeiro trabalho
E o sol já castigavam as sobrancelhas.

O primeiro amor! O homem só começa a viver quando sonha
Vejamos aqui, que atento em ser breve
Armei as minhas barracas nos acostamentos da longa estrada
Por "Quatro" vezes, nem vi o tempo passar, eu confesso
Quantas águas bebi pelo árduo caminho, não estava sozinho;
Alguns de sangue até que me intrometeram.

O mais estranho desta jornada, é que se mete os pés pelas mãos
Aquela que lhes compromete pô-las os pés na estrada
Anda meia que manquitolando, exibe o vosso calcanhar liso;
A mim me pareço cansado em mapear as rachaduras...
Pensei algumas vezes em estacionar lá pelo Km 30
Mas tinha combustível na alma, e vontade nas pernas.

Ao longo do caminho, quantos mares que secaram
Poeiras que o vento nem sabia se levava, ou se trazia
Até nisto o coração é enganoso, o peso do tempo não perdoa
Carrega a mochila nas costas, mais cheias de pecado que fadiga.

Como poderei saber o fim do meu caminho?
Conheci pessoas velhas, outrora jovens e doravante meninas
Uma espécie de retrocesso, volta no caminho...
Como poderei medir o meio deste meu caminho?
Pois aquele que me esquadrinhou ao tempo
Era ainda pedreiro, assim, sem jeito;
Tento mirar em vão o fim da estrada 
Como se cada amargura que tivesse
Fosse expirar o fim do meu murmúrio.

Entre tantos descuidos fiz uma descoberta
Que a morte não soa tão ruim assim;
Quando a pior das mortes sempre é a solidão...
Eu, que acabo por vence-las; Que o digam as antigas mariposas
As vezes sinto saudades de me ver criança
De ver a face do sol, tão jovem quanto as minhas peripécias
Mas até elas insistem a me virar a face.

Outras coisas boas aprendi na vida
Não que seja moço bom pra dar conselhos
Quem já apagou três lampiões
Não pode ensinar ninguém a escapar da escuridão
Hoje a minha alma entrelaçada
Caiu no alçapão da vida, não quer mais sair.

Dizem-se por aí muitas besteiras
Que a tal morte é que nos traz a liberdade;
Não quero ser livre, tenho apenas compromisso com a vida
Esta estrada que alguém confiou a mim
Tem muito dos seus mistérios, sabe-se lá quantos
Metros ou quilômetros, ainda terei que percorrer.

Parei no Km 44
Não é que me bateu uma vontade de me ver criança
Tem nada não, o final é logo ali
Quem sabe no Km 66
Já possa me ver velho moço
Dali a ser menino é só um pulo;
Como poderei saber o fim do meu caminho?
Espero que seja a morte
Solidão! não, solidão...

Marcelo Zacarelli
São Paulo, 09 de Janeiro de 2014



A Morte das Brasas


Sabes que olhando pra você
E vê-la assim se apagando, morrendo lentamente
Porém, tens uma sorte danada
Não tenho aonde espreguiçar o meu corpo;
Adjuntos, umas às outras, fiéis ao fogo das paixões
Consomem a si mesmas, até as cinzas da morte.

Eu, porém, afoito comigo mesmo
Afronto meu colo sem dar calor
Não que não haja em mim a luz interior
Pois quem de mim se apossa, haja amor...

Sento a um pedaço de carvalho roliço
Fico a observar o fim de todas elas
Ardem-se febris, parecem não sentir
A proximidade da sua inexistência
Mas parecem felizes!

Que posso eu oferecê-las de bate pronto
Estou munido de um vazio enorme 
Maior que o infinito...
Não há nada que eu possa fazer
A não ser esperar pelo golpe fatal da casualidade.

E olha só quem aí está?
O crepúsculo chorando os seus orvalhos
Atingiu em cheio o coração das brasas
Daqui donde estou deu para sentir
A dor logo subiu esfumaçando.

Mais ainda bem que sofreram morte rápida
Sobressaíram-se bem sobre as dores;
E quanto a mim cabisbaixo
Sentado sobre o carvalho roliço
A morte até que tentou...
Não se pode matar um coração
Cuja brasa já fora apagada.

Mas ainda estou vivo
E fito o olhar incrédulo sobre todas elas
Porém, impossível não reconhecer
Adormecem nuas, semiapagadas
Tiveram estas uma sorte danada.

Marcelo Zacarelli
São Paulo, 10 de Janeiro de 2014



A Perpetuidade de uma Lágrima


Compadecida dos olhos
Salta de entre as rugas
Do envelhecido rosto
Gritando em silêncio
Um som de angustia
Do fundo do peito
Do coração extraída
Repousa escorrida.

Quem a vê se conturba

E outras virão constantemente
Por cada lágrima
Um sonho, e uma saudade
Um por quê, e:
Por onde morrerão?

Nos lábios que se calam

Serão o fim das lamúrias?
Secarão com o vento?
Retornarão de onde vieram?
Quantas perguntas sem resposta
Por serem furtadas
De um sofrimento todo meu.

Eu bem sei que as lágrimas passam

Despercebidas ou não
Silenciosas ou gritantes
Sobres as rugas qual se multiplicam
Não podem reconstruí-las
Ao expressar-se na dor
Passam quase que por despercebidas.

Não haverá outras lágrimas

De sorte que a solidão me deixou
Porém a saudade promete
Jurou acompanhar-me
Na vida ou na morte;
Estou perpetuado a te sentir.

Marcelo Zacarelli

Itaquaquecetuba, 15 de Dezembro de 2003



05 janeiro 2014

Ato de Agir


Pensador eu sou
Alguém que morre pensando
E nem se quer se recorda
daquilo que a pouco pensou;

Sócrates o grego e Gabriel
Pensaram um dia que fossem morrer
Pensaram na vida após a morte
Não pensaram em mim
Muito menos em você;

Por um momento eu pensei
Que fosse gente
cheguei acreditar
Que um dia ficasse doente
Que pelo menos passasse
esta maldita dor de dente;

Pensador eu sou
Aquele que pensa que vai morrer
Velhinho assim ao teu lado
E nem sequer vive junto contigo
Amante do amor sepultado;

As vezes penso que:
De nada adianta pensar
E de mim passo as horas tentando fugir
Mil pensamentos que podem falhar
Se perdem num simples ato de agir.

Marcelo Zacarelli
Itaquaquecetuba, 06 de Janeiro de 2003


04 janeiro 2014

Paradigmas de um Pensamento


Tentei prender-me em um pensamento
Imaginei um deserto;
Tudo era parecido diante daquilo
Que meus olhos podiam alcançar
Superar meus limites era um desafio
Levaram-me  falhar a percepção
Junto a um delírio delinquente da imaginação
Passei a cria imagens irreais no poder do meu raciocínio.

A serpente veio ao meu encontro no deserto

Trouxe-me o poder, em troca do que restava da minha consciência
Tentei retornar a lucidez, mas algo me seduziu por completo
A fama, a inteligência e o poder;
Eu tinha apenas que pagar um preço
A cada grão daquele maldito areal
Resplandecia a luz do sol em meu rosto
O vale da sombra da morte
Era aquilo que eu criava dentro de mim
O céu e o inferno caminhavam juntos
E você pode evitá-los por alguns segundos
Basta você retornar deste deserto
São apenas paradigmas dos teus pensamentos.

A serpente é nada mais que:

Um distúrbio emocional do teu cérebro
Controlado pelo desejo repulsivo, de uma máquina humana
Que as vezes se perde com o tempo;
Tentei prender-me a um pensamento
Imaginei você... Logo vi que era um deserto intransponível
E que atravessá-la, era um delírio; Sede demais da minha boca
Areia insaciável das minhas alucinações.

Marcelo Zacarelli

Itaquaquecetuba, 06 de Janeiro de 2003



22 dezembro 2013

Père-Lachaise


Descanse em paz poesia
No útero das pedras, tuas árvores sombrias
As tuas lápides escondem segredos
Páginas de inspirações adormecidas
Para onde vão as lágrimas
Que por ti escorridas?
Para onde vão os pássaros
E suas fúnebres sinfonias?

As tuas terras que tragaram
A nobreza das artes e as poesias...
As tuas gavetas que acomodam
Os deuses celebres da imortalidade
Quando vomitarás dos teus seios
Tamanhas preciosidades?

Mas eu não!

Observo a chuva escorrer
No concreto gelado das tuas entranhas
Ouço um silêncio ensurdecedor
Na terra dos esquecimentos
E rogo para que as tuas jazidas
Cessem de preenchimentos.

Observo o cair da tarde
No fosso das faces violentadas
Interpreto um ser que perdeu a alma
No palco acinzentado da saudade
Declamo um poema da morte
Em detrimento da vida.

Um pouco mais
E já não podeis chorar por mim
Estou de visita
Como faz a noite todos os dias
De alguma forma, em qualquer coração
Eles farão as suas festas.

Mas eu não!

Se queres saber quem eu sou?
Acabo de nascer, na terra do esquecimento
Eu sou o amor, a dor, a morte...
Que descansa em um epitáfio
Em forma de poesia.

Marcelo Zacarelli
São Paulo, 21 de Dezembro de 2013


05 novembro 2013

Bordel das Freiras


No bordel das freiras
A noite se prostituía
Tal qual as mariposas
A sugar a luz.

Noctívagos entram
No cubículo apertado
Ofertam seus pecados
No madeiro da cruz.

Todos satisfazem
No escândalo da carne
Entre terços e desesperos
Todo nojo que possuis.

Da noite prostituída
Despedem-se as mariposas
Toda freira se converte esposa
No Bordel ao clarear da Luz.


Marcelo Zacarelli
São Paulo, Setembro de 2013, dia 25



Anjos e Demônios


Tu vens com tuas asas
Posar na candura do infinito
Na boca que arde como chama
Profana em teus gelados ouvidos.

Tu vens imaculada
Celebrar o gozo no precipício
Sustentada por tuas asas
Amor e ódio ou sacrifício.

Pobre demônio
Que valha da banalidade
Escravo de tua carne
Amante de seu próprio vício.

Vamos celebrar o bem e o mal
Anjos e demônios, pecados da vaidade
Sou tão somente carne
Deveras fosse espírito.


Marcelo Zacarelli
São Paulo, Rua Bela Cintra, Setembro de 2013, dia 24


Reerguer-se do Oculto


Vulgo de si mesmo, reles os pensamentos
De que se abdicou por estar sofrendo.
A flâmula que queima, o lado esquerdo do seio
E desce a vertente, a face que então; Horrendo...
Se então labutar, e com os lábios ofegar
Esparramar-se-á, em que de ti há de ansiar.

Padece aquele homem, tão pérfido, seu coração...
Que avalassa os rumores, de tamanha indecisão;
Qual lhe quebram os ossos, a teia, tendenciosa
A pele que escameia a face, da casca escabiosa.
Tinha por porfia, encerrado na prisão
A alma soterrada, estupefata admiração.

Solene, a tua voz, soava em alarido mudo
Sobre o sol das incertezas, lacrimeja o moribundo.
Sobre a haste, a fincada carne, dissipada desfalece
Ao jorrar o sangue quente, que no seu ventre umedece.
Tosco é a saudade, que vareia os teus rumores
Promíscuo da maldade, repentino como as dores.

Bem cedo tomou a tua cama, e forjou desfalecer
As vestes que de ti profana, qual jurou esmaecer.
Quantos goles de sol, enjoou na sua garganta
Quantos salmos decifrou, decorou na sua mantra.
Profundo é o abismo, raso dos teus lábios
Fruto de ti, absurdo; eloquentes em escassos.

Dentre os mortais, reanimou o teu temor
Sobre a ume, enterrou um segredo; pobre caluniador...
Viestes a este, em tom de desespero
Calastes a fim, o vitupério exacerbado dos teus erros;
Meândrico; aqueles olhos, um pasmo...
Obsoleto; até os ossos enterrados.

Descobriu-se, de intempestivos cuidados
Ainda tarde para um ato tão covarde.
Na derrocada sincera da sua lágrima
Encontrou abrigo na saliva salgada...
Teus olhos rútilos absorvem um veneno
Suave como a morte, de um brado tênue.
                                                                                   
Soluça a dor em seu travesseiro
Tão aquieta mágoa que sentiu primeiro.
Tragou a boca o sangue que te fez provar
Lâmina da faca cega, lúgubre desejar;
Quem dera bebesse o sol e vomitasse o vinho
Na volúpia demente do seu quase desatino.

Um vulto se desprega ao chão, parece fugir
Pela fresta tangente, de modo a lhe possuir...
Lasciva, e ao mesmo tempo prepotente
Frígida, maleável, levemente transparente.
Rogas no calvário, delinquentes pecados
Por causa dos teus atos, heris obcecados.

A pelugem estapafúrdia cobria-lhe o queixo
Tamanha a ruptura guardada do desleixo.
Maltrapilho vagava, mendigava o pão
Rouquejava a sua lábia, por voraz aptidão.
Não é a roupa mais que o homem
Nem o leito mais que o chão?

Mas; nem mesmo na morte um homem está sozinho
Ao turvar os olhos, murmurar o seu sorriso...
Fundo é a cisterna em que se afoga imundo
Da vida a saudade que te torna inútil;
Sutura os lábios razoável, latejados maldizentes
Reergue-se do oculto, admirável e reluzente.


Pelo autor Marcelo Henrique Zacarelli
Rua Bela Cintra, (SP) Julho de 2013, no dia 15