Marcelo Zacarelli

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18 junho 2015

Quiçá


Todo poema morreu
Todas as flores feneceram
Quiçá, o meu coração...

Súbito prelúdio que me acometeu
Se o que tenho é meu
Não dou a ninguém
Dentro de um ataúde eu escondo
Da carne ao pó,
Da alma a subtração

A sínica solene da minha despedida
Não reclame aos mortos
As estrofes perdidas...
Em cada lápide uma história
Onde começa, como termina
Tudo tem um fim;
A morte, a vida, a poesia...

Mesmo que a morte
Me esqueça por uma vida
Viverei intensamente para você
Todos os meus fatídicos dias
Meu amor; por mais que não me queiras
Não podereis dizer
Quiçá, o meu coração.

Marcelo Henrique Zacarelli
São Paulo, 08 de Janeiro de 2015
(Bairro Pinheiros)

O quê fazer com o orgulho ferido de uma mulher?


O tempo tem sido um inimigo duro
Todas as manhãs, em forma de pensamento
Por carregar consigo um amor singular
O amor de um pai por uma filha...

Quantas noites solitárias

Eu e meu amigo travesseiro
Lutando pelo não cair de uma lágrima (inevitável)
O quê fazer com o orgulho ferido de uma mulher?

O dia amanhece em meu quarto

É quando percebo que existo
Ao olhar o meu rosto no espelho
E ver as marcas de uma noite sofrida

Me fez lembrar daquele sonho

Esboçar um sorriso escondido
Tímido, incompreendido (incompleto)
Más o quê fazer com o orgulho ferido de uma mulher?

O destino é uma estrada adiante

Que machuca os meus pés
Más eu tenho que prosseguir (tenho que seguir)
Mesmo sem saber onde ela vai dar

Não sei até onde meu coração vai aguentar

Mas eu tenho um estepe guardado (a esperança)
Quando caminho descalço em um chão gelado
Para abrir as portas e deixar entrar a luz do teu olhar

Más o tempo, sempre ele...

Um juiz severo e justo, reduziu-me ao nada
Você será para mim a esperança de um no dia
Por mais que eu tente entender (eu me pergunto)
O quê fazer com o orgulho ferido de uma mulher.

Marcelo Zacarelli

Village, 18 de Junho de 2015

30 agosto 2014

Eu Devia Saber


Eu devia saber que terminaria assim
A barba grisalha, esdruxula, crescida
Eu é que deveria me acostumar comigo
Assim tão cheio de mim, de alma vazia.

Preencho o quarto com tamanha solidão
Trancafiando enfim todo o pensamento
Tudo que restou de mim se resume em pôr do sol
Que toda tarde cai do firmamento.

Desço as ruas das lamentações
As tristes ruas de paralelepípedos
Dores e mais dores espalhadas pelo chão
Bocas a procura de sorrisos.

Eis que num outono gelado, geme;
Um coração fragmentado, devastado
Percorre por calçadas e bueiros
E desaparecem no uivar do vento.

Porém, mais uma noite se aproxima
Onde será que foi que me meti?
Preciso tomar um banho, arrumar a cama
Sem eu por perto não consigo dormir.

Amanhã de manhã, eu irei colocar a mesa
Vou tomar um café, refletir sobre o fim
Viver sem você á muito me deixou uma certeza
Eu devia saber que terminaria assim.

Marcelo Zacarelli
São Paulo, 15 de Agosto de 2014



28 julho 2014

Maior do que o Mar


Eu descia para ver o mar
Todas as tardes, eu queria compreender,
Eu ficava a imaginar, um azul quase que infinito 
As gralhas quebravam um silêncio, 
Espantavam os meus pensamentos. 

Todas as vezes que o mar engolia o sol

Enfartava de um verde quase morto,
Bem parecido com o meu coração 
Eu ficava mais um pouco, 
Até que o mar quebrasse aos meus pés. 

Eu só queria compreender... 

Então voltava sempre vazio, 
Apenas preenchido de um pensamento, 
Muitas vezes maior do que o mar.

Marcelo Zacarelli

Village, 17 de Maio de 2014





Bocas que se Calam


O vento passa com suas mãos sorrateiras
Apalpando tudo que vê pela frente,
As árvores derrubarão suas bocas
Uma a uma todas famintas,
Molhadas e contorcidas
Estremecidas as procuram entre si...

Umas as outras sedentas

Por um bocado de orvalho,
Que possam matar-lhes a sede
Folhas caídas pelo vento sufocadas,
Bailam sozinhas sem destino
A procura do par recalcado.

Até que as árvores produzam

Outras bocas,
A saudade subsistirá
Transpassando os corações,
Bocas que se encontram
Por alguma razão,
E se calam pela dor da solidão.

Marcelo Zacarelli
São Paulo, 10 de Maio de 2014





Não Chore pelo Outono


Não chore pelo outono
A época de morrer,
Quando a terra começar a dormir
Desfrute do tempo de começar de novo.

Experimente do glorioso frio outonal,
Nesta noite de verão
As lágrimas desaparecerão
Somente as pedras permanecerão,
Logo eu e você desaparecerá
As pedras por si só permanecerão.

Se o vento mudar a direção

Atirando as folhas contra,
Um murmúrio esbravejado do céu
Irá detê-las todas elas.

Lembre-se que um pensamento

Independe das estações,
Um amor pode nascer no verão
E morrer no outono,
Assim como as folhas não descansarão
Até que encontre repouso num vazio coração.

Marcelo Zacarelli

São Paulo, 07 de Maio de 2014







02 março 2014

Liberdade no Xis


Há semanas ele está sóbrio
Abrigado do frio e do mau tempo
Da janela sozinho conversa com o vento
Que lhe sopram más notícias;

Lá no Xis, sempre quis
Ter liberdade para pensar
Extravasar por ora as dores
Compor a vida, sofrida de amores;

De pulsos cerrados
Invisivelmente algemado
Um homem sem sombra
Pelo sol esquecido;

A saudade da mulher que ama
Coração rabiscado na parede
A dor da qual se transforma em poesia
Passa a noite em claro, ao raiar do dia;

O relógio que marca
A eternidade do tempo
Grades e portões não as podem prendê-lo
Aquele homem no Xis
Coloca em liberdade o seus pensamentos.

Texto modificado (em partes) do seu Original
em: 02 de Março de 2014

Marcelo Zacarelli
Itaquaquecetuba, 17 de Maio de 2002





01 março 2014

As Rochas não Falam


A Solidão, esta; Que habita no meu coração
Praia deserta de rochas silenciosas
Contam um segredo só meu.
Falo aos passarinhos, estes zombam de mim
Em perfeita sinfonia caçoam do meu sofrer.

Desabafo então com as pedras
Estas, não podem opinar a meu respeito;
Por que as desgraçadas não podem ouvir?

Vejo ao longe o mar abraçar as rochas
Estas, oferecem-lhe a face
Para que o sal palpem-lhes o queixo...
Tenho lágrimas que o sal do mar
Não as podem enfrentar.

Acendo uma fogueira na areia
Esta, faz-me lembrar o teu calor
Tomo um vinho seco
E fico a namorar a lua até a madrugada.

Quando o sol despenca no travesseiro
Imaginário do meu leito,
Levanto e preparo uma jangada
Ponho-me a desbravar os oceanos...

Em terra firme queixo-me as pedras
Estas, ficam a admirar o meu sofrer
Parecem murmurar aos meu ouvidos;
Mais dia menos dia, tudo parece mudar
As areias, os mares, eu e a solidão...

As rochas continuam mudas
Quanto as minhas queixas
Estas, são todas ouvido.

Autor: Marcelo Zacarelli
São Paulo, 15 de Janeiro de 2014





25 janeiro 2014

O Meu Jardim Imaginário


Certas coisas me deixam atônito
Outras esperançoso
Fumo um cigarro por inteiro
Já quase no fim da vida
Dispenso-o agonizando
Na plataforma da velha estação
Transeuntes se despedem
Se abraçam; É a saudade, é a solidão...

Eu fico com a despedida do trem

Se parece mais com meu coração
Sigo sem destino pelos trilhos da ilusão
As vezes penso que estou ficando velho
Daqueles que precisam do balanço
De uma velha cadeira
Que senti a necessidade do calor
Da quase apagada lareira.

As vezes me sinto um garoto sonhador

Daqueles que saem no inverno para comprar sonhos
E toca o mais profundo gelo, a sua dor...
Suas mãos pequeninas, curtas o bastante
Para tocar o íntimo de uma flor.

O tempo vai passando com seus ponteiros sorrateiros

Parecem nunca parar para descansar
Vejo sua foto, amarelada pelo passar do tempo
Porém teu sorriso é intacto, e me encanta.

Quantas primaveras ainda terei de esperar

O meu jardim imaginário reclama
A raiz desta tua ausência;
Serás para sempre a mais bela rosa
Todas as tuas rebeldes pétalas
São para mim favos de mel
O pousar da mais completa abstinência
Daquilo que me consome e se chama amor.

Estou disposto a desafiar o tempo

Mesmo jovem ou ainda velho
Ainda sinto aquela brasa semiapagada;
Não partirá o trem, nem haverá despedidas
Enquanto não crescer aquelas mãos pequeninas
Elas podarão do jardim a mais linda flor
Então poderei descansar o meu coração.

Quero apalpá-la somente mais uma vez

Sei que teus espinhos hão de perfurar minhas mãos
Sangue do meu sangue, metade minha
Amar-te-ei com todas as minhas forças
No meu jardim imaginário
Rego todos os dias com minhas lágrimas
Teu caule forte e franzino
Paloma, metade minha.

"Homenagem a você, Paloma Cristina Zacarelli 
Minha filha, minha metade, para toda vida."

Marcelo Zacarelli
São Paulo, 24 de Janeiro de 2014





19 janeiro 2014

Reticências


Pobre diabo é que sois
Caçoava de mim, a minha própria existência
Que pensas que é o amor?
Se não da vida, as reticências...
Deixei-as por inacabadas
Mas quem é que não chega a morrer assim?
Eu mesmo vivo farto delas.

Replico, de teimoso
Por que amar, este mesmo, nem sabe;
O caminho do ódio me parece mais curto
E põem-te a sofrer menos
Por isso amei odiá-las, por convicção ou acaso.

Quando me pego na solidão, lá vem elas
Saltam entre linhas de amores não correspondidos
Podem-se achá-las em qualquer esquina
Qualquer quarto, em goles de bebidas...
Estas coisas, por ironia do destino
Assombraram-me sem qualquer aviso.

Então encontrei uma maneira de virar o jogo
Nas exclamações até certo ponto
Por ora deram-me certo;
Otimismo demais fazem mal a saúde
Adoecem as certeza, alimentam as decepções

Se tudo pode ser uma interrogação
Até mesmo a morte
Fica a dúvida se me perguntares
Até quando a sorte?
Foi então que cansei 
Abri mão da sínica gramática da vida.

Se queres uma sincera opinião sobre a vida
Toma esta por explanação!
Que faço eu agora com os temores desta vida?
Os rumores dos amores!
Ah! os amores...

Marcelo Zacarelli
São Paulo, 09 de Janeiro de 2014



Estrada Km 44


Deveras, o caminho da vida é uma estrada
Infinita aos olhos da criança, curta para o intuito da adulta
Porém, não são os mesmos sóis por ambos os caminhos?
A diferença é que há um, paira no firmamento
Enquanto o outro morre na gula dos seus dias;

Eu acordei criança ainda pelo Km 5
Não me perguntem sobre as páginas da minha meninice
Talvez o pai pudesse-lhes dizer, não fosse desde 2007
Nem pó, nem ataúde, nem projeto de gente;
Quanto a mãe, na qual percorreu esta estrada
Confortável assentada na janela do tempo
Ainda que os sessenta e sete o tomara
Corra! para que os anos não lhe afetem a memória.

Quase sai do purgatório da inocência aos quatorze
Pisando em terra firme, velejei pelos mares desta vida
De certo que eras feminino; eu as mesmo provei
Extraíram-se destes, muito mais sais que prazeres;
A primeira carteira, o primeiro trabalho
E o sol já castigavam as sobrancelhas.

O primeiro amor! O homem só começa a viver quando sonha
Vejamos aqui, que atento em ser breve
Armei as minhas barracas nos acostamentos da longa estrada
Por "Quatro" vezes, nem vi o tempo passar, eu confesso
Quantas águas bebi pelo árduo caminho, não estava sozinho;
Alguns de sangue até que me intrometeram.

O mais estranho desta jornada, é que se mete os pés pelas mãos
Aquela que lhes compromete pô-las os pés na estrada
Anda meia que manquitolando, exibe o vosso calcanhar liso;
A mim me pareço cansado em mapear as rachaduras...
Pensei algumas vezes em estacionar lá pelo Km 30
Mas tinha combustível na alma, e vontade nas pernas.

Ao longo do caminho, quantos mares que secaram
Poeiras que o vento nem sabia se levava, ou se trazia
Até nisto o coração é enganoso, o peso do tempo não perdoa
Carrega a mochila nas costas, mais cheias de pecado que fadiga.

Como poderei saber o fim do meu caminho?
Conheci pessoas velhas, outrora jovens e doravante meninas
Uma espécie de retrocesso, volta no caminho...
Como poderei medir o meio deste meu caminho?
Pois aquele que me esquadrinhou ao tempo
Era ainda pedreiro, assim, sem jeito;
Tento mirar em vão o fim da estrada 
Como se cada amargura que tivesse
Fosse expirar o fim do meu murmúrio.

Entre tantos descuidos fiz uma descoberta
Que a morte não soa tão ruim assim;
Quando a pior das mortes sempre é a solidão...
Eu, que acabo por vence-las; Que o digam as antigas mariposas
As vezes sinto saudades de me ver criança
De ver a face do sol, tão jovem quanto as minhas peripécias
Mas até elas insistem a me virar a face.

Outras coisas boas aprendi na vida
Não que seja moço bom pra dar conselhos
Quem já apagou três lampiões
Não pode ensinar ninguém a escapar da escuridão
Hoje a minha alma entrelaçada
Caiu no alçapão da vida, não quer mais sair.

Dizem-se por aí muitas besteiras
Que a tal morte é que nos traz a liberdade;
Não quero ser livre, tenho apenas compromisso com a vida
Esta estrada que alguém confiou a mim
Tem muito dos seus mistérios, sabe-se lá quantos
Metros ou quilômetros, ainda terei que percorrer.

Parei no Km 44
Não é que me bateu uma vontade de me ver criança
Tem nada não, o final é logo ali
Quem sabe no Km 66
Já possa me ver velho moço
Dali a ser menino é só um pulo;
Como poderei saber o fim do meu caminho?
Espero que seja a morte
Solidão! não, solidão...

Marcelo Zacarelli
São Paulo, 09 de Janeiro de 2014



A Morte das Brasas


Sabes que olhando pra você
E vê-la assim se apagando, morrendo lentamente
Porém, tens uma sorte danada
Não tenho aonde espreguiçar o meu corpo;
Adjuntos, umas às outras, fiéis ao fogo das paixões
Consomem a si mesmas, até as cinzas da morte.

Eu, porém, afoito comigo mesmo
Afronto meu colo sem dar calor
Não que não haja em mim a luz interior
Pois quem de mim se apossa, haja amor...

Sento a um pedaço de carvalho roliço
Fico a observar o fim de todas elas
Ardem-se febris, parecem não sentir
A proximidade da sua inexistência
Mas parecem felizes!

Que posso eu oferecê-las de bate pronto
Estou munido de um vazio enorme 
Maior que o infinito...
Não há nada que eu possa fazer
A não ser esperar pelo golpe fatal da casualidade.

E olha só quem aí está?
O crepúsculo chorando os seus orvalhos
Atingiu em cheio o coração das brasas
Daqui donde estou deu para sentir
A dor logo subiu esfumaçando.

Mais ainda bem que sofreram morte rápida
Sobressaíram-se bem sobre as dores;
E quanto a mim cabisbaixo
Sentado sobre o carvalho roliço
A morte até que tentou...
Não se pode matar um coração
Cuja brasa já fora apagada.

Mas ainda estou vivo
E fito o olhar incrédulo sobre todas elas
Porém, impossível não reconhecer
Adormecem nuas, semiapagadas
Tiveram estas uma sorte danada.

Marcelo Zacarelli
São Paulo, 10 de Janeiro de 2014



Para Sempre Dormir


Tento fugir, mas não consigo
Da imaginação que criei
Busco parar, mas é inútil
Impossível teu rosto esquecer;

Tento lutar, não resisto
A imagem que vem de você
Dos meus olhos não sai um segundo
Todo rosto me lembra você;

Talvez se o sol se zangasse
E matasse meu corpo de frio
E no escuro você me encontrasse
Preencheria o meu peito vazio;

Imagino teu corpo em meu corpo
Impossível, um sonho pra mim
Não quero acordar deste sono
Me deixe para sempre dormir.

Marcelo Zacarelli
Itaquaquecetuba, 05 de Junho de 2000


Coração de Papel


Cai chuva; Os teus pingos não mais me intimidam
Eles apenas se misturam com as lágrimas do meu rosto
Fazem de mim bem maior o meu pranto
Um rio de lágrimas eu vi pelo chão
E lá estava o meu pensamento navegando
Feito um barco sem rumo em volta do tempo;
Minha dor tornou-se tripulante deste barco sem destino
Então corremos mar a fora em busca do teu amor
O céu era azul; Mas não era doce como céu da tua boca
O mar se mostrava salgado, amargo como o sal de uma lágrima

Eu fiquei perdido no tempo, preso nas minhas indecisões
A bússola da saudade, apontava por caminhos inexistentes
Meu coração feito um barco de papel, encalhado sobre as rochas
Esperando pelo vento que soprasse em terra firme;
Onde você se escondeu? Eu preciso sentir o teu calor
Por que tomastes outro rumo, levando consigo parte de mim.

Depois de uma noite comprida, ajustei as velas
Meu corpo cansado, quem dera fosse de metal pesado
Naufragaria todos os meus sentimentos, não pesar-me-ia a dor
Mas eis que, meu coração é feito de papel
Esquadrinhei-o em forma de um barco
E coloquei-o a navegar pelos mares da ilusão
Na esperança de encontrar o porto das tuas mãos
Ao desfazer-se um bilhete contido uma escrita
Simplesmente te amo.

Marcelo Zacarelli
Itaquaquecetuba, 03 de Fevereiro de 1991



27 outubro 2013

Casta Gueixa


Toquei os lábios de uma Gueixa
O gosto do primeiro amor...
A língua cala o coração se queixa
E sangra na mordida do sabor.

Aos quase dezesseis desta minha existência

Afligiu-me por pura casualidade;
Da carne arrancada, perdeu-se a inocência
Fruto este seu da nua sensualidade.

Neste meu pecado e duro

Abriu-se os olhos; Não como antes...
No seu vermelho intenso, maduro
Provou aquela que hoje tens por amante.

Na efêmera castidade que perdi

Ainda não deixei de ser menina;
O mel do néctar, desperdiçado no sorrir
mesma fruta, mesma carne; Aparente feminina.

Uma cereja em chamas, insaciável paixão

Perfurada na carne, não perde o apetite;
Uma vez consumada, dá-se à, fornicação
A cereja mordida de uma Gueixa virgem.

Marcelo Zacarelli

Rua Bela Cintra (SP) Setembro de 2013, dia 20


15 setembro 2013

Raras Incertezas


Traço um sorriso,
fino como o ouro,
porém envelhecido.

Descubro um tom,
avermelhado de amargura,
estonteante e rejuvenescido.

Vejo as pétalas caídas,
ouriçadas pelo tumulto
do outono ventríloquo.

São as orquídeas desbotadas,
pensamento a flutuar;
Meu coração em confinamento.

Peca a minha boca só de pensar,
nos teus lábios molhados,
o batom a ressecar.

Um roxo da morte,
dança no útero da noite;
As violetas seminuas.

Raras incertezas,
queimam o coração,
ainda vivem na brasa da solidão.

Pelo autor Marcelo H. Zacarelli
São Paulo, Agosto de 2013 no dia 30





Hades Homofóbico


Busca encontrar onde estive em vida,
por que a mais severas das paixões senti na carne;
Vitupério que é só meu,
no seol descansaram as lembranças do meu eu.
Lábios libidinosos agonizaram
no sal do meu reto;
Espojaram centenas de milhões,
daquilo que me é feito, existência do nada.

O sol travestiu-se de viúva ao meio dia,
a noiva arrependida da minha tarde vadia;
Toda forma da minha subsistência,
hoje é calcário, dor e nada...
Mas não se aventure em outros ossos,
por que na volúpia da tua sede,
há de secar a tua boca;

Guarda para ti os teus anseios,
me entrega como carta a tua alma.
Eis que fiz a tua cama sobre a lama,
e deitastes sobre o pó da tua entranha;
Este é o pecado que tens por ter amado,
reflexo de alguém do mesmo sexo.

Neste submundo de perplexas opiniões,
estamos no olho da sociedade deste hades;
Cubra-me com o véu da concupiscência,
antes que caiamos na teia
do veneno da mãe consciência.

Pelo autor Marcelo H. Zacarelli
Carapicuíba, Setembro de 2013 no dia 13




No Cio

De um lascivo quente improvável,
o contorno profundo dos teus lábios.
Qual lança o meu dedo detestável;
Vomita lavas teu poço insaciável,
submete a língua ao paladar do sol.

Em braile faço a leitura do teu corpo,
no epicentro vultoso do teu gozo;
A pira acesa do castanho dos teus olhos,
reduz a cinzas todo comportamento animal.

Porém não me darei por vencido,
eu, que me nutri no seio de uma delas...
Despojei da carne por soberba aptidão,
não tocarão na alma, nem cobra, nem escorpião.

Preparas-te pois o sangue é escarlate,
das entranhas vingativa dos teus dias;
Deturparão as vias obscuras dos meus nervos,
até que farta-se do nojo que possuis.

Até que o cio anuncie um novo dia,
comerás da carne da tua presa que rodeia.

Pelo autor Marcelo H. Zacarelli
São Paulo, Agosto de 2013 no dia 30