Marcelo Zacarelli

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12 fevereiro 2014

A Tribo dos Remanescentes


Dispersaram-se os corvos da imunda carnificina
Atiçaram os coiotes predadores, dentre o sangue das feridas;
Abutres disputavam os restos mutilados
Dos flagelos que tornastes tua tribo.

Vós, os remanescentes da grande tribulação
Sereis devorados em um só golpe
Teu exército sucumbirá como o pó do deserto
Qual sobe feito redemoinho a soprar em teus ouvidos
O estridente ruído da indignação.

Estarei adjunto a infantaria pesada
Subiremos montanhas à caça da vossa carcaça
Devastaremos as vossas esperanças
Aniquilaremos as vossas rosas
O vosso jardim tornar-se-á um seol de pétalas despedaçadas.

Cantaremos um cântico fúnebre em memória da vossa derrota
Na terra do esquecimento, as tuas lápides estarão em negrito
Todo olho que ver, lembrará da desonra da tua tribo;
Fecharemos a boca dos grandes lobos
Arrancaremos as vossas mandíbulas.

Todos os teus pensamentos tornaram-se ruínas;
Então escolheremos outros povos
Formaremos uma tribo leal aos nossos conceitos
Toda ideologia fútil escarnecida.

Jaz em um ataúde consumido pelo tempo
Seremos a tribo dos cavaleiros indulgentes
A vós antepassados desobedientes
Sereis lembrados na vergonha
Pela tribo dos remanescentes.

Marcelo Zacarelli
São Paulo, 24 de Janeiro de 2014



22 dezembro 2013

Père-Lachaise


Descanse em paz poesia
No útero das pedras, tuas árvores sombrias
As tuas lápides escondem segredos
Páginas de inspirações adormecidas
Para onde vão as lágrimas
Que por ti escorridas?
Para onde vão os pássaros
E suas fúnebres sinfonias?

As tuas terras que tragaram
A nobreza das artes e as poesias...
As tuas gavetas que acomodam
Os deuses celebres da imortalidade
Quando vomitarás dos teus seios
Tamanhas preciosidades?

Mas eu não!

Observo a chuva escorrer
No concreto gelado das tuas entranhas
Ouço um silêncio ensurdecedor
Na terra dos esquecimentos
E rogo para que as tuas jazidas
Cessem de preenchimentos.

Observo o cair da tarde
No fosso das faces violentadas
Interpreto um ser que perdeu a alma
No palco acinzentado da saudade
Declamo um poema da morte
Em detrimento da vida.

Um pouco mais
E já não podeis chorar por mim
Estou de visita
Como faz a noite todos os dias
De alguma forma, em qualquer coração
Eles farão as suas festas.

Mas eu não!

Se queres saber quem eu sou?
Acabo de nascer, na terra do esquecimento
Eu sou o amor, a dor, a morte...
Que descansa em um epitáfio
Em forma de poesia.

Marcelo Zacarelli
São Paulo, 21 de Dezembro de 2013


05 novembro 2013

Reerguer-se do Oculto


Vulgo de si mesmo, reles os pensamentos
De que se abdicou por estar sofrendo.
A flâmula que queima, o lado esquerdo do seio
E desce a vertente, a face que então; Horrendo...
Se então labutar, e com os lábios ofegar
Esparramar-se-á, em que de ti há de ansiar.

Padece aquele homem, tão pérfido, seu coração...
Que avalassa os rumores, de tamanha indecisão;
Qual lhe quebram os ossos, a teia, tendenciosa
A pele que escameia a face, da casca escabiosa.
Tinha por porfia, encerrado na prisão
A alma soterrada, estupefata admiração.

Solene, a tua voz, soava em alarido mudo
Sobre o sol das incertezas, lacrimeja o moribundo.
Sobre a haste, a fincada carne, dissipada desfalece
Ao jorrar o sangue quente, que no seu ventre umedece.
Tosco é a saudade, que vareia os teus rumores
Promíscuo da maldade, repentino como as dores.

Bem cedo tomou a tua cama, e forjou desfalecer
As vestes que de ti profana, qual jurou esmaecer.
Quantos goles de sol, enjoou na sua garganta
Quantos salmos decifrou, decorou na sua mantra.
Profundo é o abismo, raso dos teus lábios
Fruto de ti, absurdo; eloquentes em escassos.

Dentre os mortais, reanimou o teu temor
Sobre a ume, enterrou um segredo; pobre caluniador...
Viestes a este, em tom de desespero
Calastes a fim, o vitupério exacerbado dos teus erros;
Meândrico; aqueles olhos, um pasmo...
Obsoleto; até os ossos enterrados.

Descobriu-se, de intempestivos cuidados
Ainda tarde para um ato tão covarde.
Na derrocada sincera da sua lágrima
Encontrou abrigo na saliva salgada...
Teus olhos rútilos absorvem um veneno
Suave como a morte, de um brado tênue.
                                                                                   
Soluça a dor em seu travesseiro
Tão aquieta mágoa que sentiu primeiro.
Tragou a boca o sangue que te fez provar
Lâmina da faca cega, lúgubre desejar;
Quem dera bebesse o sol e vomitasse o vinho
Na volúpia demente do seu quase desatino.

Um vulto se desprega ao chão, parece fugir
Pela fresta tangente, de modo a lhe possuir...
Lasciva, e ao mesmo tempo prepotente
Frígida, maleável, levemente transparente.
Rogas no calvário, delinquentes pecados
Por causa dos teus atos, heris obcecados.

A pelugem estapafúrdia cobria-lhe o queixo
Tamanha a ruptura guardada do desleixo.
Maltrapilho vagava, mendigava o pão
Rouquejava a sua lábia, por voraz aptidão.
Não é a roupa mais que o homem
Nem o leito mais que o chão?

Mas; nem mesmo na morte um homem está sozinho
Ao turvar os olhos, murmurar o seu sorriso...
Fundo é a cisterna em que se afoga imundo
Da vida a saudade que te torna inútil;
Sutura os lábios razoável, latejados maldizentes
Reergue-se do oculto, admirável e reluzente.


Pelo autor Marcelo Henrique Zacarelli
Rua Bela Cintra, (SP) Julho de 2013, no dia 15


15 setembro 2013

A Emboscada dos Xamãs


Sou um andarilho no olho do sol, 
seguindo as marchas das almas.
Vim comer as nádegas das águas, 
no deserto incerto deixei minhas pegadas.
Sigo pelo caminho inverso,
para a emboscada dos Xamãs;
As aves disputam a carne cansada,
dos meus flagelados calcanhares.

Gastas alparcas, pergaminhos retalhados e um odre vazio;
Seguirei até o asilo das tribos dos meus descendentes, 
até que uivem os lobos e minha alma geme.
Todas as formas de amor transformara-se em ódio,
a forasteira morte tem o tiro certeiro;
Deita-se comigo moribunda fêmea... 
Antes que o vinho apodreça em minha mente.

A noite vomita nos olhos da serpente,
todo veneno que por ti tem extraído;
Na dança dos Xamãs descobri um segredo,
toda criança tem um sonho,
todo homem tem um medo.
Não descansarei até que as chagas
da minha carne encontre a cura;
A morte é só um meio.

Pelo autor Marcelo H. Zacarelli
São Carlos, Agosto de 2013 no dia 31





Hades Homofóbico


Busca encontrar onde estive em vida,
por que a mais severas das paixões senti na carne;
Vitupério que é só meu,
no seol descansaram as lembranças do meu eu.
Lábios libidinosos agonizaram
no sal do meu reto;
Espojaram centenas de milhões,
daquilo que me é feito, existência do nada.

O sol travestiu-se de viúva ao meio dia,
a noiva arrependida da minha tarde vadia;
Toda forma da minha subsistência,
hoje é calcário, dor e nada...
Mas não se aventure em outros ossos,
por que na volúpia da tua sede,
há de secar a tua boca;

Guarda para ti os teus anseios,
me entrega como carta a tua alma.
Eis que fiz a tua cama sobre a lama,
e deitastes sobre o pó da tua entranha;
Este é o pecado que tens por ter amado,
reflexo de alguém do mesmo sexo.

Neste submundo de perplexas opiniões,
estamos no olho da sociedade deste hades;
Cubra-me com o véu da concupiscência,
antes que caiamos na teia
do veneno da mãe consciência.

Pelo autor Marcelo H. Zacarelli
Carapicuíba, Setembro de 2013 no dia 13




No Cio

De um lascivo quente improvável,
o contorno profundo dos teus lábios.
Qual lança o meu dedo detestável;
Vomita lavas teu poço insaciável,
submete a língua ao paladar do sol.

Em braile faço a leitura do teu corpo,
no epicentro vultoso do teu gozo;
A pira acesa do castanho dos teus olhos,
reduz a cinzas todo comportamento animal.

Porém não me darei por vencido,
eu, que me nutri no seio de uma delas...
Despojei da carne por soberba aptidão,
não tocarão na alma, nem cobra, nem escorpião.

Preparas-te pois o sangue é escarlate,
das entranhas vingativa dos teus dias;
Deturparão as vias obscuras dos meus nervos,
até que farta-se do nojo que possuis.

Até que o cio anuncie um novo dia,
comerás da carne da tua presa que rodeia.

Pelo autor Marcelo H. Zacarelli
São Paulo, Agosto de 2013 no dia 30


15 abril 2013

A Dália do Ártico


Entre os gêneros é que te perdestes
Franzina fêmea
Teus olhares absurdos, aguçados...
Querem que seja tu quem não és
Pois és tu quem não querem que sejas;

Entre os girassóis te perdestes
A mais linda dália do Ártico
Sobre os aguilhões do preconceito
Vararam as tuas entranhas
Teu caule subitamente amordaçado
Palavras jogadas ao vento...

Bem sei quem tu és
Areia quente do deserto
Teus olhos marejados são lamentos
Sobrevive entre a sociedade das flores
Em um covil de lobos esfomeados
Querem a tua carne vegetal saciado
Apedrejam tua nudez com perjuras
Aquele a quem espera a primavera
Prematura no ventre dos amantes...

Quando o sol descer à sepultura dos montes
E a noite cair como noiva no teu leito
Saberás que o inverno bate em sua porta
Gemidos que uivam em vãos pensamentos;

Franzina fêmea
Onde estão as rosas que te acusastes?
Não sobreviveram ao duro golpe do tempo?
Na geleira do preconceito brilhou a luz do sol
Derramou o teu perfume feito sangue
Exalou nas narinas da sociedade
Intoxicou a consciência dos mais nobres ignorantes.


Pelo autor Marcelo Henrique Zacarelli
Village, Abril de 2013 no dia 15


A Revoada dos Corvos


Eles vieram em revoadas famintas por instinto
Supostamente enviadas por Adolf e Aleister
Devastaram os campos; O coração do homem...
Ceifaram as mentes dos subordinados
Vieram para a colheita do grande dia.

Eis que esbravejou uma voz; Uma ruptura nos céus
Espalhou-se a corja dos corvos
Sobre as cinzas a matilha escafedeu-se
Com árduas feridas acampadas na tua alma
A morte cura; Mas deixa a cicatriz da emboscada.



Pelo autor Marcelo Henrique Zacarelli
Village, Março de 2013 no dia 18.




24 março 2013

A Penumbra no Meu Quarto


Repousa em mim a escuridão
Gemidos curtos de aptidões minuciosas
Do ponto mais cego da luz
A carne esfacelada pela navalha
Sangra intensamente, escorre a vida pela vala;

Ainda semimorto no leito
O contraste da luz pelas pupilas dilatadas
Ouriça os tímpanos em vão por um esforço
Ouço a voz de uma possível despedida
Não há mais tempo para a tal; Morte da vida...



Pelo autor Marcelo Henrique Zacarelli
Village, Março de 2013 no dia 18.


03 março 2013

Tetraplégico


Você que me olha num leito
Não julgue a carcaça de um pobre diabo...
Aquele que tem a dor por confinamento
A febre na pele, pelo amor odiado;

Ainda que possa sentir o mar, o sal, o cheiro...
A solidão de um pássaro em plena revoada
Por que sei que tens um dia inteiro
Em mim a eternidade para tocar a minha alma;

Porém não as impedem os meus pensamentos
A súbita, ingrata e trancafiada vidraça...
Há tanta vida lá fora eu rogo em lamento
Mas não a nada que queira e não faça;

Posso até abraçar a fina areia
Senti-la nos dedos ecoar pela vala
A lua curvar aos meus pés; Esperneia...

Sou tetraplégico na carne
Condenado a solidão, subordinado a saudade...
Sou um pintor cujo pincel se desenha com a tinta da alma.


Pelo autor Marcelo Henrique Zacarelli
Tucuruvi, São Paulo, Março de 2013 no dia 01


Utopia da Minha Vaidade


Tem dias que tenho vontade de correr na chuva
Tropeçar com as pernas do meu coração
Cair de peito em uma poça d’água;

Tem dias em que me sinto o lodo da lama
Vejo a vida escorrer por entre os dedos
À tarde de uma primavera ceifar meus pensamentos...

Tenho por mim que o sol há de enxugar uma lágrima
Pois a maioria delas desceu pelas enxurradas
A maquiagem da saudade se desfez em solidão;

O tom laranja do céu faz da tarde quase uma emboscada
A vida me lançou em rapel, a morte me esperou na topada...
Nem a um, nem a outro; Por ora não me faz falta.

O tempo estia e seca a nudez dos meus olhos
Suborna o suor da longínqua estrada...
Estou perdido e que ninguém me encontre 
Utopia desta minha vaidade;

Tem dias que quero a noite só pra mim
Escura, deprimida, repleta de solidão...
No calabouço obstinado da minha repugnância.

Tem dias que morro no amanhecer de um dia
Mas a chuva cai e levam as rugas do meu rosto
Sou jovem demais para renunciar a vida.


Pelo autor Marcelo Henrique Zacarelli
Tucuruvi, São Paulo, Março de 2013 no dia 01



24 fevereiro 2013

Harakiri


Minha alma insana inflama
Banhada a sangue de punhal, reclama...
Todos os meus instintos foram extintos
Meu orgulho ferido, banido.

É preciso cortar a carne para purificar a alma
O cálice amargo da vergonha que me acompanha...
Todas elas embriagam as minhas entranhas
O poema da minha morte em estrofes estranhas.

A minha face esconde o medo
O temor da minha honra...
A reputação cortada ao fio da navalha
Minhas vestes alvas imaculadas.

Esvaíram de minhas veias pecaminosas
Todas as dores que não mais suportava...
Meu espírito agora clama por outra vida
A carne que ficou por um ritual suicida.


Pelo autor Marcelo Henrique Zacarelli
Village, Fevereiro de 2013 no dia 17.

As Flores de Aço


O sol vestiu-se com um manto negro
Febril, escondeu o rosto, queimou por dentro...
Envergonhou-se da luz do dia
De tão cinza lacrimejou sua ira.

Nos campos de Plaszow um anjo
As flores de aço inofensivas
Calvário incalculável de seus caules
Amordaçados por nazistas homicidas.

Exalam seu fedor a Deus as suas narinas
Condenam a terra o seu sangue precioso
Homens e crianças sem rosto
Pétalas asfixiadas; Carnificina.

Um dia, porém o sol há de romper a escuridão
E a noite como mãe dará a luz o dia
A esperança há de brotar nos campos de concentração
Na lápide descansa a rosa; No rol as rubricas da vida.

Podaram do jardim as mais belas flores
Mulheres e crianças Judias...
Talmude que carregam suas dores
Em Auschwitz a vida está de partida.

Mas há um tempo em que a vida suborna a morte
Um anjo travestido de demônio...
Coube a um punhado de rosas tamanha sorte
O legado de um homem que acreditou em seus sonhos.

“Em homenagem a Oskar Schindler e aos mais de mil Judeus salvos em sua lista”

Pelo autor Marcelo Henrique Zacarelli
Village, Fevereiro de 2013 no dia 24.

09 fevereiro 2013

As Lágrimas do Sol


Há tempos caminhamos pela escuridão
Nossas faces escameadas pela ignorância
Ensandecidas, suam ao golpe do tempo...
Você acredita o tanto quanto eu,
Pois somos guiados pelo coração
Traídos pelo sangue dos antepassados;

As lágrimas do sol
Não se esgotarão até que a noite vire o dia.


Até aonde poderemos chegar?
Há um rebanho de envaidecidos
Eles acreditam na luz através da escuridão;
A cada golpe de navalha da própria consciência
Eles cortam a carne a sangue frio
E a venda segue tapando as pupilas;

Você pode escolher o mistério através dos meus olhos
Os abutres rodeiam a carne abaixo do céu...
Eles não vão parar até que caiam as lágrimas do sol;

As lágrimas do sol
Não se esgotarão até que a noite vire o dia.

Lamas de sangue terão que atravessar
Irmãos indefesos como aves abatidas
Matar ou morrer a guerra fria nos ensina;
O futuro estará comprometido
O sol dará a sua face negra
Eles não descansarão até que a noite vire o dia.


Pelo autor Marcelo Henrique Zacarelli
Village, Fevereiro de 2013 no dia 08.